September 09, 2020

Nostalgia

Esses dias eu estava me questionando: “se fosse possível voltar no tempo e reviver tudo de novo a partir de um determinado momento, mas mantendo tudo que você adquiriu de conhecimento, experiência e sabedoria até a data presente, você voltaria?” Eu mal term...

Esses dias eu estava me questionando: “se fosse possível voltar no tempo e reviver tudo de novo a partir de um determinado momento, mas mantendo tudo que você adquiriu de conhecimento, experiência e sabedoria até a data presente, você voltaria?”

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Eu mal terminei o pensamento e já estava respondendo: É CLARO QUE SIM!!!

Eu não tive a infância perfeita, mas foi quase. Nasci numa cidade metropolitana próxima da cidade do interior na qual fui criado, já que lá não tinha maternidade. Minha infância foi acometida de muitas mudanças de cidades/estados e consequentemente nunca tive a oportunidade de criar muitas raízes em um mesmo lugar. Mudei pra 4 estados num intervalo de 8 anos, até voltar pro interior após esses corridos 8 anos.

Na primeira mudança eu era muito novo, nos mudamos para meu pai finalizar a pós-graduação dele. Não tenho muitas lembranças além de assistir o VHS do Rei Leão quase diariamente, já tinha decorado até as cenas e falas (sério). E me lembro também que como meus pais passavam o dia fora, minha irmã (2 anos mais velha) e eu ficávamos sob os cuidados de uma amiga dos meus pais, que fazia uma comida que eu não consigo me lembrar, mas era simplesmente incrível.

A segunda mudança foi bem rápida, onde voltamos pro interior por alguns meses até nos mudarmos novamente, depois que meu pai passou numa seleção de mestrado.

Já na terceira mudança (dessa vez para o mestrado do meu pai), um pouco mais velho já fui matriculado em uma escola juntamente com a minha irmã. Ela estudava uma série na minha frente nesse ponto. Íamos a pé todos os dias, a escola não ficava muito distante da nossa casa, era uma caminhada de cerca de 10-15 minutos, bem calma e com uma vista até que bonita. Morávamos nas proximidades do Rio Pantanal, onde não era incomum vermos capivaras e jacarés com certa frequência. No final da nossa rua tinha um recinto da guarda florestal, era incrível lá! Animais empalhados, armas antigas, animais debilitados sob cuidados de veterinários e especialistas… tinha absolutamente de tudo, e lá era um dos lugares que eu mais ia, já que no começo era apenas minha irmã e eu, não tínhamos muitos amigos nas primeiras semanas.

Lembro que minha escola era enorme, na hora do recreio íamos pro centro da quadra para cantarmos o hino antes de nos servirem a “merenda”, que geralmente era polenta, ênfase no geralmente (não que fosse ruim ou enjoativo, mas era repetido quase que diariamente, inclusive nunca mais comi). Foi nessa escola que criei gosto por leitura, era incrível o número de livros que eu lia, obviamente todos eram infantis.

Foi nessa cidade também que tive meu primeiro contato com um vídeo game, onde uma vizinha nossa que futuramente viria a ser melhor amiga da minha irmã tinha um Super Nintendo. Eu passava o dia lá jogando Street Fighter II e Aladdin, eu era completamente fissurado, eram duas obras primas.

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![LONGPLAY] SNES - Aladdin [100%] (4K, 60FPS) - YouTube](https://i.ytimg.com/vi/G9m2gAuWkOY/maxresdefault.jpg)

Após uns meses meu pai comprou o primeiro computador pessoal que já tivemos. Era bem modesto, sem internet, meu pai só usava para redigir os trabalhos dele, mas era o suficiente pra rodar uns joguinhos bobos em flash. Minha paixão por jogos só aumentava, e eu nem percebia.

Infelizmente não tive a oportunidade de fazer amizades duradouras ou profundas, já que passamos pouco menos de 2 anos lá, e eu não saía muito de casa ou fazia atividades extra sala. As únicas amizades que fiz foram com as nossas vizinhas do SNES e com os guardas da reserva florestal.

A quarta e última mudança foi a mais “impactante”, foi onde ficamos mais tempo antes de voltarmos para nosso interior. Lá fiz diversos amigos, infelizmente não tenho mais contato com nenhum deles, na verdade nunca tive depois que me mudei. Lá foi onde tive certeza da minha paixão por tecnologia e que iria querer seguir profissionalmente na área de computação, foi onde construí boa parte da pessoa que sou hoje. Dessa vez, o motivo da mudança foi devido ao doutorado do meu pai.

A chegada já foi conturbada, visto que nem eu nem minha irmã poderíamos começar o ano letivo devido ao ano já estar na metade, então ficamos à deriva em casa por uns 5-6 meses. A vantagem é que meus pais tinham amigos que moravam na mesma cidade, então eles nos deixavam com esses amigos diversas vezes.

Quando finalmente fomos nos matricular na escola, era pra eu fazer a terceira série, e minha irmã a quarta, mas devido a algumas leis estatais com idade e afins que não sei ao certo, tive que repetir a segunda série e minha irmã foi para a quarta sem quaisquer problemas. E ainda por cima, minha irmã foi matriculada em uma escola, e eu em outra, porém as escolas eram vizinhas, então tudo bem. Menos por um dia que minha mãe foi nos buscar e acabou esquecendo desse detalhe, levando embora apenas minha irmã enquanto eu corria atrás do carro, foi uma cena hilária mas desesperadora.

Lembram daquele primeiro computador que meu pai comprou? Agora tínhamos internet discada, e era o máximo! Conheci o iGuinho, o site infantil da iG. Foi meu primeiro contato recreativo com a internet, mesmo que bem limitado e controlado. Tínhamos que pedir pro nosso pai liberar o telefone por alguns minutos e cronometrar o uso, já que a cobrança no final do mês era tenebrosa.

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Aos poucos fui ganhando aqueles jogos de supermercado, que vinham numa revista com CDs. Jogos de qualidade totalmente duvidosa, mas naquela época era simplesmente incrível. Foi numa dessas revistas que conheci Freedom Fighters, jogo que eu adorava jogar mas morria de medo (não sei o motivo do medo até hoje).

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O episódio que me fez ter certeza da carreira profissional foi quando o mouse do computador simplesmente parou de funcionar e não respondia mais. No momento do problema meu pai estava bem ocupado e necessitado do computador, redigindo uns trabalhos e entrou em desespero já que não conseguia salvar o documento e nem sabia utilizar os atalhos do computador etc. Tive algum insight aleatório que me permitiu usar o computador só com o teclado. Pra uma criança de 6-7 anos, isso era um feito incrível. Não só pelo fato de conseguir usar o computador sem um dos principais periféricos de controle, mas também pelo fato de conseguir ajudar adultos, que geralmente eram os que me ajudavam em tudo. Desse dia em diante estava sempre estudando e sendo curioso em assuntos correlatos, principalmente em Hardware, o que me fez escolher meu curso.

Fiz boas amizades e tive boas aventuras na quarta mudança. Ah, foi nessa época que assisti meu primeiro filme no cinema: O Grinch. E caramba, que experiência sensacional! Foi um universo totalmente diferente pra mim, assistir um filme numa tela gigante e com um som estrondoso, eu fiquei apaixonado pela experiência e poucos dias depois assisti outro filme: A Nova Onda do Imperador.

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Finalmente, depois de 8 anos, voltamos pro nosso interior após nosso pai ser contratado lá. E caramba, que viagem (literalmente)! Nós voltamos de carro, foram três dias de viagem e uma distância de mais ou menos 2500km. Foi bem doido viajar 3 (três) dias dentro de um carro, parando só pra dormir e comer. O carro era um Fiat Uno Fire 2003, com quatro pessoas dentro e mais uma porrada de coisa sendo transportada pra mudança, daí vocês imaginam a aventura que foi. Mas foi impressionante e 100% incrível toda a viagem, já que passamos por diversas cidades e paisagens maravilhosas.

Assim que chegamos no nosso destino, não conhecíamos nada nem ninguém (eu e minha irmã, no caso). Só lembrávamos dos nossos avós e do nossos tios que tinham ficado lá. Tínhamos outro sotaque e outros costumes, mas nosso sangue falava mais alto, poucas semanas depois esses detalhes já tinham sido contornados.

A partir desse ponto, creio que tive os melhores anos da minha vida. Entre 2004 e 2011 eu era realmente feliz, e infelizmente não fazia ideia.

Estudei por 2 anos em uma escola com minha irmã, após sermos matriculados numa escola de freiras (irmãs franciscanas), e isso foi um choque que moldou nosso caráter hoje. Não sou religioso, longe disso, mas estudar em um colégio que prega bons costumes e boa educação acima de tudo, nos ajudou a enxergar o mundo e as pessoas com outros olhos.

Fiz dois grandes amigos nos primeiros anos da volta ao interior, não lembro exatamente qual razão/motivo/circunstância do início da nossa amizade, mas caramba, foi sem sombra de dúvidas as melhores amizades que já tive na vida. Eram dois irmãos, um da minha idade e outro 2 anos mais velho, mas nos dávamos muito bem. Eu vivia na casa deles, era 24/7. Quando eu sumia de casa, era só me procurar na casa deles que eu tava lá. Incontáveis as vezes que dormi lá, já teve vez de eu dormir 3-4 dias seguidos na casa deles, eu tava quase me mudando pra lá.

Graças a eles, conheci e me interessei por ainda mais jogos. Eles tinham um PlayStation 2 e um DreamCast (melhor console da história na minha opinião).

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Era sensacional a possibilidade de podermos jogar os 3 ao mesmo tempo, e vários jogos. Nós éramos viciados em Virtua Tennis e Spawn. Mas um dos nossos jogos favoritos era single player e nossa diversão era observar um o outro jogando, e esse jogo era Shenmue, que merece um post só pra ele futuramente.

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Foi com eles que aprendi a gostar de desenho animado (éramos viciados em Padrinhos Mágicos e nos sitcoms da Nick, do Nick At Nite), foi com eles que aprendi a gostar de basquete (eles torciam pro Miami Heat e eu pro Chicago Bulls na época), foi com eles que comecei a acompanhar mais futebol (eles eram Vascaínos e eu Fluminense). Eu devo muito da minha infância a eles, mas muito mesmo, nunca vou esquecer deles.

Infelizmente o tempo foi passando e as responsabilidades e universos foram mudando, e acabamos nos afastando. Sempre que nos vemos hoje em dia, é como se tivesse tudo do mesmo jeito, a alegria é a mesma.

Houve uma época que fiquei doente e tive que fazer um tratamento com benzetacil, eu tomava uma injeção a cada 2 meses, e meu Deus, que injeção do capeta, dói MUITO! Minha avó que me levava no hospital para tomar a bendita. Na volta ela me dava R$ 5,00 e eu ficava na lan house de video game. Era engolindo o choro e vidrado no PS2.

Inclusive, nessa época R$ 5,00 era uma fortuna! Lembro que as vezes meus avós me davam cinco reais e eu comprava uns dois salgados, uma lata de coca-cola, umas balas e ainda sobrava R$ 4,90!!! Maldita inflação e depreciação monetária.

Nesse tempo a febre de locadoras de filme tava em alta, e caramba eu era viciado em alugar filme. Todo final de semana alugava uns 2-3 filmes. Foi numa dessas aventuras que conheci uma das maiores obras cinematográficas já feitas: Kung Fu Futebol Clube (Shaolin Soccer). O filme é aquele trash que acaba sendo hilário e divertidíssimo de assistir. Já assisti ele no mínimo umas 5 vezes, e pretendo assistir muito mais ainda.

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A cultura de alugar filmes e baixar séries naquela época era muito forte. Todo mundo alugava filme nas locadoras da esquina e arriscava assistir os lançamentos do cinema numa qualidade horrível (com gente passando na frente da gravação, gente rindo/conversando por cima do áudio do filme, etc).

Numa das vezes que fiquei doente (benzetacil intensifies), fiquei acamado e minha vó alugou Canguru Jack pra mim, agradeço minha vó pelo gosto impecável de filmes. Quando fiquei 100% curado uns 2 dias depois ela me obrigou a devolver o filme e pagar a multa do aluguel.

Mas nem só de felicidade e alegria vive o jovem brasileiro. Em 2008 foi a primeira vez que entrei aos prantos com algo abstrato. Depois de uma campanha lendária na libertadores, o Fluminense perdeu a final em casa pra LDU. Eu estava devastado. Nunca havia torcido tanto num jogo, eu literalmente gritava dentro de casa lance a lance, coisa jamais antes feita por mim. Pior ainda foi no ano seguinte, onde o mesmo Fluminense perdeu pra mesma LDU agora na final da Copa Sul-Americana. Fiquei alguns meses sem acompanhar futebol depois dessa desilusão, mas durou pouco e hoje já sou acostumado com a derrota e má fase.

Com o passar do tempo fui conhecendo outras pessoas e fazendo outras amizades. Foi no colégio que conheci a minha primeira namorada, uma menina exemplar. Inteligente, linda e ria das minhas piadas, era tudo que eu procurava numa pessoa. Fiquei completamente apaixonado a primeira vista, porém como ela estudava uma série na minha frente, após sair do terceiro ano, ela se mudou e tivemos que nos separar, infelizmente. Hoje em dia mantemos contato e somos amigos.

Os anos que passei no colégio das freiras, foi sem sombra de dúvidas, os melhores anos da minha vida. Aprendi muito, brinquei muito, ri muito, chorei muito e fiz absolutamente tudo que tinha pra ser feito, não tenho absolutamente nenhum arrependimento. As responsabilidades de um jovem na transição do ensino fundamental para o ensino médio são bem supérfluas, onde você só tem que estudar e tem o resto do dia totalmente livre. Meus momentos livres eu estava brincando na rua, jogando bola, jogando video game ou na lan house da cidade jogando WoW, DotA ou CS 1.6.

Quando nos juntávamos na “lan house de Seu Fernando” era risada e treta garantida. Sempre saía um chorando. Em meados de 2007-2008 começou a febre de WoW lá. Nós achamos um servidor privado da expansão do WotLK chamado XLanHouse, onde tinha sistema VIP e afins. Não consigo nem imaginar o tanto de dinheiro arrecadado pelo servidor vindo da lan house de Seu Fernando. Eu cheguei a gastar uns R$ 200,00 naquele servidor comprando armas e equipamentos editados. Tiveram uns que gastaram 10x o que eu gastei, sério.

Minha diversão era chegar na lan house de tarde e ficar até umas 17-18h upando char em Stranglethorn Vale, a nostalgia bate só de lembrar das zonas do WoW 3.3.5a.

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Depois a febre foi de DotA (mapa do Warcraft III) e CS 1.6 ranqueado. O rank era controlado pelo filho do dono da lan house, e nós nunca desconfiamos que o safado editava o próprio rank e se colocava em primeiro.

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Quando finalmente tínhamos condições financeiras de ter um computador um pouco melhor e uma conexão de internet mais forte, fomos deixando a lan house morrer aos poucos. Raramente íamos pra lá, até que chegou o triste dia que Seu Fernando fechou a lan house e ficamos órfãos de um point pra sentar e jogar por horas, rindo e xingando sem parar e conversando besteira.

É isso. Essa sensação de que nunca mais vou poder viver esses momentos novamente é muito triste, mas ao mesmo tempo eu sou grato e feliz por ter vivido tudo isso. A nostalgia é justamente isso, a saudade idealizada de algo passado que agora é inalcançável.

Quando era mais novo eu colocava meus braços por dentro da camisa e fingia ter perdido meus braços. Eu reiniciava os jogos quando sabia que ia perder. Eu dormia com todos os bichos de pelúcia pra nenhum deles se sentir ofendido. Eu tinha aquela caneta com 4 cores e tentava empurrar todas as cores de uma vez. Eu colocava refrigerante num copinho de dose e fingia que tava virando dose. Eu esperava atrás das portas pra dar susto nos outros, mas não aguentava segurar por muito tempo porque eu cansava ou precisava ir no banheiro. Eu fingia estar dormindo no sofá pro meu pai me carregar até a cama. Eu pensava que a lua seguia o carro durante a noite. Eu transformava numa corrida aquelas duas gotas de chuva que estavam escorrendo na janela do carro. Eu engolia semente de fruta morrendo de medo de que uma árvore fosse crescer na minha barriga… Eu… Eu era uma criança com imaginação fértil e sem responsabilidades pra me tirar essa imaginação.

A efemeridade da infância -> pré adolescência -> adolescência é irônica. Quando somos mais jovens tudo que queremos é que o tempo passe logo para que a vida adulta chegue e para sermos “livres” e “independentes”, mas assim que temos essa liberdade e independência, tudo que queremos é voltar pro tempo que apenas desejávamos tê-las. O que a gente estava pensando em desejar crescer logo?

Cabe a mim apenas lembrar, e não deixas essas lembranças morrerem. Enquanto elas estiverem vivas, poderei dizer que elas foram reais, e poderei afirmar que vivi e aproveitei os melhores momentos, sem arrependimentos. E espero que meus filhos, netos, bisnetos e gerações futuras possam ter a mesma oportunidade que eu tive.

E você? Se pudesse voltar no tempo, voltaria?